Nocaute azul

Levanta rápido a vertigem que soca ao muro
Dá um trago no vento para a sede no escuro
Arde como o fósforo que ascendeu no dedo

A lâmpada queima, o teto cai,
o chão puxado como tapete
Vibra o peito com as costas no asfalto
Derrete, derrete, chocolate ao leite

Os olhos no céu nu, todo azul
sem rasantes, nem motores
sob as luzes da cidade desligada

Pássaros cantam com jeito de folha
Árvores escutam o perfume das flores

RQ 2020

[Pôs-se abaixo, como o sol]

x.Põe o sol abaixo-2

Senta no costado de luz indo
Refletido em cortinas de vidro
Teto alvo pinta a memória poente
Carne rosada, lírios, pincel e paredes

Beijo na treva da lua
Bola na trave à sombra do pé
Baba o tamanduá no céu das saúvas
“Breu da piscada nua”, a madame sussurra

a taça de vinho e batom na beira
com sarda nas maçãs vermelhas
com o vestido de vento nordeste
como véu engasgado nos versos

Acende a vela e aquece o vapor náutico
Vindo com as nuvens abridoras de retina
Tempestades elétricas dão coreografia à areia
Às cinzas dos fantasmas espreguiçam raízes aéreas

Lentes embaçadas pelo hipopótamo faminto

Escreve só, com a bochecha que estilhaça-se

no descanso, nos cacos do sorriso

RQ 2020

[Grama da rua em flerte]

+Grama da rua em flerte

Vê sua casa que esvai nos dedos
Janelas estilhaçadas, caem muros inteiros

Em passos de machado que bate a lenha,
Sai pela porta com bagagem nas costas,
Deixa ao pé de boas-vindas e segue leve
Relógio para e a cadeira cruza a rua
Ele assenta e acende seu fumo casmurro

O jardim de incêndio!
Trem da falta serpente
Os uivos dum mudo,
De grupos de gente.
Arranham o ar turvo,
Trepando as paredes

Saudade do ninho sobre a janela
E a jornada que volta com vermes
Do programa de rádio enlatado
Da vida nos dias, em gestos e verbos,
Galopes, coices, na noite os diabos
Canoa no quarto, o ombro dos sonhos
nada passa no olho…

… e nem na rua.

Medita às ruínas, labirinto
Lentes de vidro sugerindo
Mentiras e máscaras

É madrugada e não consegue dormir
O caminhão dá o fora com entulho
E tudo silencia
… no escuro

O homem respira bem fundo,
dobra a sela, deixa a cabeça
e volta tão cedo
… ao recomeço

RQ 2020

[Ferozmente hipnotizado na policromia do jardim]

 

x.Ferozmente hipnotizado na policromia do jardim

Os perfumes espiralam no vórtice que pôs a fim

cada pétala cobrindo um buraco do escafandro

Luz crepuscular no antro dos óleos turvos
Boca melada masca abelhas com lábios vibrantes
Orelha de libélulas-pimenta libertas no corte de navalha
Pulmão venta borboletas com sobrancelhas da tigresa listrada
Evaporam-se ovelhas na perspectiva do siri…

Suspenso, como os poros da relva
nas patas das feras que habitam o mundo invisível

Único nesse sonho intranquilo,
onde como de colher os doces coloridos
onde uso espartilhos folgados no umbigo
onde sou terrível e colho buquês de primavera

para orvalhar as remelas
e forrar meu travesseiro de arco-íris.

RQ 2020

 

 

 

[Chove e não-mole]

x.CRO.Chove e não-mole

A rua alaga esticando as margens pra cima da calçada, enquanto uma gota de suor escorre por dentro do corpo. Por fora ensopa, duas caras na moeda. Algum peixe fantasma descansa na bota. Atchim na mão, que projeta além do vidro dessa única janela acesa no paredão. Não consigo secar as palmas, pois a toalha não deu tempo desensopar. Todas as outras no varal lastimoso com espelhos embaixo. Torço a saia e saio daquele assento esgotado, canto mergulhado e sem carga. O celular morreu, cigarro apagou. Pela sala desfilo, destilando até o janelão aberto. Coloco no copo algo velho e dou passadas escorregadias até a distância do raio.

Um camelo sem cabeça (!), vejo na copa das árvores negras, que ganhou uma calha no trovão. Cai canivete, enquanto enxugo a lente dos olhos cegos. Sigo seta que boia inabalável, e eu dentro de tijolo e concreto pela chave-Jiraya na porta. Tenho um olho-mágico que espanta maus-olhados como um samurai de guarda, meias e sandália. Só de pensar, sinto uma coceira na perna que alivio com a frente d’outro pé, aproveitando para secá-la com as quatro unhas, afogadas como dois coelhos-bruxos boiando nos cajados de orvalho. Cosseno seco, pois escorreu pela hipotenusa. Cachorros fedem e não expressam: sem latir e de focinhos baixos. Habitantes de seus ninhos chegam de tranças escorrendo e lábios tremem. Casais correm com compras suicidas e guarda-chuvas ao avesso. Crianças tomam bronca ao aterrissar solas nas poças como se fossem galochas. Caminhoneiros remam do teto com o limite nos calcanhares. Minha TV congela. Boto duas pedras no drink. Resta a garça de binóculos vendo o pelad’outro prédio, apertado também, em frente, de roupão aberto e me brindando a xícara fumegante. Saúde. Espirro. Tão a salvo da chuva, como ele do frio. Damos gole, tomo rumo e fecho a cortina.

[A cigarra ri bigodes ardidos]

x.A cigarra ri bigodes ardidos

“Que vês tu nessas jornadas?
Onde está o teu jardim
e o teu palácio de fadas
meu sonâmbulo arlequim?”
Cruz e Souza (Canção do bêbado)

 

Os pés rasteiros flutuaram

quem dançou com a cintura nua

Não bajula o braço,

abre o passo pro ioiô girar
cheira a ponta dos dedos e vibra por dentro

Chicotes de cabelo acariciam os olhos
Cornos imaginários crescem como rabos felpudos
Copos sobem e baixam aos cotovelos corroídos
Seis cedo, os joelhos cheios e o cão latindo

Quem vaza é que não abasteceu a carga
ou quem falou tanto que perdeu a carona

Estas horas que as estrelas espantam-se cos postes
O Sol é peste cos pedestres, como foi cas pedras
As rolinhas cantam camufladas nas ramagens
Outras aves acompanham, tico-tico e bem-te-vi

Menos o galo, que arde nas cigarras

até morrer

de rir.

RQ 20

 

 

 

 

 

 

[Cachaço de Porco Fumado com Ameixa]

x.Cachaço de Porco Fumado com Ameixa

Um cálice de amoras despeja rubis
Gargalhadas respingam cachaça

em doses de grito das bruxas cunhãs
de carvões carmim carquejando o maxilar

A essência das flores goteja no queixo
e umedece os lábios de piranga

Na sapucaí em ciranda,
Vi rostos virados em máscaras de besta
onde a fenda abre o baile das saias

Zangões melódicos libertam-se das colmeias

tatus rolam no pêndulo das serpentes
micos fazem dos galhos baquetas
onças assopram papagaios até virarem borboletas
guarás dançam nos dentes dos jacarés
jabutis entram no lago dos preguiças gigantes
e as garças aplaudem com os quadris

Nossos passos de morcego-neon espantam as sombras
Até o Sol subindo…

… com lúmen piado pelas nuvens frutíferas

que nos bota pra dormir

RQ 20

 

 

 

[Choque-choque]

x.Choque-choque.jpg

Do agito meio-a-meio

arbustivo em média ao mato,

Sacode… Sacode!

Ou vaza de barco:

isso se pode e de casco furado.

 

Os trovões das doze batizando o buáaaaa
BUAAAAA!
BUAAAAAAAAAAA!

 

O bafo…
Um espírito incompleto que espoca os olhos do AAAAlfabeto

Cortadores de piaçava

decolariam em vassouras com motores de popa
Não fossem jaula das ariranhas afiadas

Palmeiras com jeito de cabelo de mulher
penteia na faca, para tirar as fibras ruins

Estrondos de pau com tronco espantam até jaguar
enquanto o tapa nas linhas, assusta armadeiras famintas

 

Põe a peçonha na pata

e sobe a mata sem medo no pé

Mamelucos criados na canoa e nada de sonhos no céu
Com fome vibratória e espetando lança nos poraquês

em vez de esperarem que matem os jacarés

 

Só alcançam, pobres homens
Enquanto puderem esquecê-los

Aos goles vermelhos de bandeira e choque-choque.

RQ 20

[Chapéu explora elas por Eros]

“Cresceste para a rebentação
da folhagem, para o cheiro de sangue
se o colírio do amor desnuda
as paisagens.”

António Cabrita, Fotogenia de Sísifo

 

Corpo ao lado com espigas empalando’s pés à cabeça
Faz-se um voodoo encarando o espelho

Nu, corpo macio
que aguenta agulhadas
Ui! Essa inesperada

picou a orelha
e pisca num beijo de olhos apertados

 

Sem chapéu revela a careca com brinco de pérola
O abraço de terno aberto e descamisado

Os ramos de inverno, descobertos

lustram o vento se lixando pras folhas

Enquanto mamilos bicudos insistem nos bolsos frontais

O tecido balança com a brisa e sorri provocante
O sapato puído não é de couro, mas a costura engana
Até que a unha ofensiva fura…
A pinta de piercing removido no canto da boca

esguichando como a estátua dum menino nu

 

A paixão apunhala os hormônios púberes de Eros

que galopa de estrela em estrela
com o pequenino conjunto de arco-e-flechas em mãos

 

O que acontece quando vemos debaixo da pele?
Qual cor tiraniza as refrações?

A víbora encarnada come os dois.

RQ 19

[Brilho de amantes]

Dente Desperta. santa - cópiaUma forja aos corações
Envoltos com o véu que foge ao vento
dos corpos derretendo como velas

A carne é caos que se expressa em movimentos

A visão torna-se abstrata como a dança do fogo
e a paixão ardente dá potência pra nascer o terceiro olho

Duas rochas palpitantes que escureceram,
engolidas pela fome da pupila

A luz apaga.

O amor não é oferecer a gema preciosa,
mas os carvões que abraçam-se tão forte

e tornam-se o diamante

de brilho gigante.

RQ 19

Desenho: Beeau Goméz
para a capa do livro Dente Desperta (Rodrigo Qohen, 2019)